Ambientação


Após uma longa espera para chegar ao Tibete, a ansiedade foi desaparecendo, afinal já cá estou. Entre tonturas, náuseas e uma vontade extrema de cair para o lado, o meu organismo decidiu que preciso mesmo de comer, custe o que custar. Sou um pouco esquisitinha com a comida e por isso tenho tido alguma dificuldade em suportar o cheiro a leite de yak que está impregnado em todo o lado. A ideia é frequentar lugares genuinamente tibetanos, pelo que à segunda tentativa consigo entrar num restaurante bem arejado, onde engoli dois pratos de arroz com vegetais de forma muito decidida e completamente deliciada, acompanhados da tradicional Coca-Cola. Já os outros clientes do lugar achavam tanta piada a olhar para os seus pratos, como para mim, sempre de forma discreta, ou nem por isso. A refeição começa sempre com o habitual termos de chá que nos é trazido. Se bem que este era um pouco peculiar, sendo que o que quer que seja que trouxeram no fundo da chávena mudou de forma ao juntar-se a água quente, mas tenho de admitir que era uma delícia! No final da refeição, a fome estava enganada por umas horas e tinha já apreciado algumas cenas das famílias que se encontravam no mesmo espaço.

Após o almoço, queria visitar o Barkhor, o famoso

movimentos eternos

movimentos eternos

bairro tibetano. A grande praça que antecede o percurso sagrado tem vida própria. Bastam uns segundos para nos apercebermos do seu ritmo e da diversidade de pessoas que por ali passam. Entre os grupos de peregrinos passeiam-se monges, turistas, vendedores, curiosos e crianças. A primeira sensação de que algo não bate certo acontece ao ver alguns monges a falar ao telemóvel. Mas então e aquela ideia do Tibete lendário? O Tintim não me preparou para isto! Li todos os guias e livros que consegui, dedicados ao Tibete e à causa, mas nenhum me falou de modernidade!  A iniciar a kora sagrada, encontram-se pilares completamente envoltos em bandeiras de oração. O percurso efectua-se sempre no sentido dos ponteiros do relógio. Deixo-me envolver e arrastar pelo movimento. Quando páro por instantes, sinto a energia deste percurso – não sendo budista nem religiosa, fico impressionada com a fé dos peregrinos e com a movimentação que se realiza a um ritmo muito próprio. Estou abismada com estas ruas, outrora genuinamente tibetanas, actualmente reconstruções made by China para turista ver e revolucionário não conseguir escapar (dizem que as ruas estreitas foram destruídas porque facilitavam a fuga de protestantes e revolucionários e que os tiros da polícia não acertavam no alvo). Todo o percurso, em toda a sua extensão, está ladeado de bancas onde se oferecem os mais diversos produtos aos passantes. Ladeando a kora, existem quatro fornos onde se queimam incenso e zimbro durante todo o dia, sendo alimentados por peregrinos. Todos eles transportam na mão uma roda de oração, que é rodada no sentido dos ponteiros do relógio, também, acrescentando movimento e sons bem característicos a esta circunvalação.

As cores do Jokhang

As cores do Jokhang

Bem no centro do percurso encontra-se o Jokhang, o mosteiro mais famoso do país, onde nos cruzamos com alguns turistas e muitos monges. Com todo o entusiasmo entrei e percorri o espaço lentamente (já que as forças não davam para mais). A sensação de estar a sonhar não desaparece, continua a ser difícil acreditar que aqui estou. As cores do mosteiro são vibrantes. Os pontos de interesse são tantos que se torna difícil decidir por onde começar. Ganhei coragem, subi mais uns degraus e cheguei ao terraço, de onde se avista toda a praça do Barkhor. A visão é estonteante, o movimento continua a sentir-se no ar e vejo salpicos dos hábitos bordeaux por toda a praça. Terminadas as tarefas, os monges reúnem-se ao final do dia para espairecer, usar livremente o telemóvel e conversar. Enquanto deambulava por ali, cruzei-me com alguns monges e timidamente fui repetindo cada vez mais confiante a célebre expressão Tashi Delek, que significa boa sorte ou felicidade. Finalmente um monge passou por mim, a correr escadas abaixo. Ganhei coragem e repeti: Tashi

Delek! e qual não foi o meu espanto quando continuou apressado, mal reparando em mim. Fiquei um pouco desiludida e reparei que ele regressara, a correr, escada acima. Juntei as restantes forças e fui novamente até ao terraço, onde se encontrava, com a sua Nikon digital, fotografando o Potala sob um céu de tempestade, de onde saiam raios prateados que iluminavam justamente os lugares sagrados! Claro que aí percebi e partilhei do seu entusiasmo.

a luz do sagrado

O mosteiro foi construído no ano 642 e ganhou fama aquando da presença de Atisha, enquanto mestre budista, no séc. XI. No seu interior guardam-se relíquias incontáveis e encerra também um pequeno percurso sagrado, ladeado de rodas de oração. Do terraço avistam-se os veados dourados e a roda Dharma, ícones do budismo e símbolos da busca da verdade. A arquitectura tibetana está bem presente na forma trapezoidal das janelas, nas cores fortes e nos terraços. Avistam-se telhados do bairro antigo e se nos perdermos um pouco pelos aposentos dos monges, apercebemo-nos de que os hábitos diários serão bastante diferentes dos nossos.

um lugar arejado

um lugar arejado

Depois do fecho do mosteiro, terminámos a kora e passámos por um restaurante indiano, onde resolvemos jantar. Havendo naan, a minha vida ganha outro sabor. Neste caso um pouco gordurento e enjoativo, mas o suficiente para restabelecer energias e me garantir de que no Tibete não morrerei à fome. Como estava num terraço, continuei a observar a vida cá em baixo, com tanta riqueza e movimento.

Entretanto, voltei à realidade – precisava de ir à casa de banho e qual não foi o meu espanto quando reparei que esta era a céu aberto…sim, num restaurante…

De regresso ao hotel, certifiquei-me de que o Potala lá continuava, improvisei um tripé com o que encontrei e passei umas horas a olhar pela janela. Os planos para viver esta aventura ao máximo vão ganhando forma…

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One thought on “Ambientação

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