uma bica ao sol


O Verão instalou-se nas esplanadas ao ritmo a que fiquei confinada a cafés como forma de me manter acordada, trabalhando onde gostaria de gozar o sol.

De outros tempos, aqui fica um texto elaborado para a Escrever, Escrever, num curso que me levou a viajar. Que saudades…

Uma bica ao sol

Do you give me 20 cents for buy coffee? perguntava, num ar dissimuladamente descontraído. Sorria esperançoso, baralhado pela máquina fotográfica a tiracolo, que me rotulava como turista. Unha do mindinho amarelada e comprida, cabelo e barba grisalhos, a lembrar o preto sedoso de outros tempos, pele morena, ar aciganado. Não me disse o seu nome. Cravava dinheiro a quem chegava. Just cents. Apelava à boa disposição de quem passeia despreocupado pela cidade ao fim da tarde. Ignorou a senhora rabugenta que não deixou que lhe passassem à frente na fila para o quiosque. Descontraiu os ombros quando ouviu I´ll buy you coffe. And porto. Do you want anything else? Num sorriso escondido agradeceu No, just coffee and cigarrettes. Do you have cigarrettes? A parte boa da tarde chegara, finalmente uma bica!

Chega-se ao Chiado cortando caminho por um turbilhão de gente. Sobem a Rua Garrett em pequenos grupos, ora apressados, ora em conversas vagarosas passeio acima. Acumulam-se no Largo, entre músicos, mimos, artesãos de rua que vendem acessórios originais com um toque trendy. Animação. Pára-se para observar a multidão no seu movimento. O Chiado tem vida. De esplanada, a tomar um chocolate quente, a saborear o aroma de um café ou a sorver uma limonada. De rua, a ouvir músicas que se cruzam e nos transportam para outro plano, onde o barulho é agradável, a vida passa devagar, o sol aquece a alma. Observam-se candeeiros, fachadas, entradas esculturais e marcos arquitectónicos de origem mal conhecida. Procuram-se vestígios do incêndio que, na década de 80, roubou a vida cosmopolita a esta encosta de Lisboa. Mas o tempo e as pessoas recuperaram essa vida. Trouxeram os turistas e os lisboetas. Sorrisos para a fotografia, n’A Brasileira, um café de renome, frente à estátua de Pessoa, uma estranha figura que se multiplicou na literatura como se multiplicam as personagens que rodeiam a sua existência de pedra. Sentem-se encontrões apressados de quem não pára para sentir. Não é aqui que quero ficar. O que apetece mesmo, mesmo, numa tarde tão solarenga, é esquecer as obrigações e os pensamentos e mergulhar numa esplanada, beber uma bica. Ouvir as conversas e ver quem passa. Sentir as páginas de um livro entre as mãos.

Cheira a castanhas assadas, fora de época, segundo o senhor António, que nos vai entretendo enquanto esperamos por um cartucho quentinho. Uma dúzia, quentes e boas!, exclama, enquanto povoa o ar que respiramos do aroma dos dias frios de Outono. O dia vai fugindo e vou descobrindo Lisboa. Pela Trindade acima, por escadarias e becos, ruas e ruelas. Portas entreabertas por onde apetece espreitar, uma vida de bairro que se afirma ao lado da outra, dos que visitam a cidade e se vão embora ao fim do dia.

Pelos miradouros…

Ajustou o tripé, esperou que eu saísse da sua frente e respirou fundo. Queria secretamente fotografar aquele casal, com o castelo ao fundo. Duas silhuetas negras na cidade cheia de luz. Aqui, no miradouro de S. Pedro de Alcântara, num dos bancos de jardim, espreita-se quem passa. Observam-se crianças a provocar os pombos que evitam os intrusos. Ouve-se a água do chafariz, a cascata da fonte. Idosos que jogam às cartas e até um gato que se espreguiça. Longe das ruas animadas e confusas do Chiado, num passo mais lento, saboreia-se a vida. Uma bica estica o tempo, alonga a tarde que teima em ficar e prende o sol aos telhados.

Mas Lisboa não pára. Mais adiante, entre ruelas decadentes, na fronteira do Bairro Alto com o Príncipe Real, uma outra esplanada espreita. Esta é mesmo secreta. Não há máquinas fotográficas, fala-se português. Um palacete aproveitado para uma exposição de renome. Uma vista da famosa ponte 25 de Abril, ao jeito da de São Francisco. Muitos telhados. Antenas de televisão e janelas entreabertas que nos vão deixando espreitar as casas de quem permanece no centro da cidade. Varandas e roupa estendida enchem a tarde de sol e cor. O nome da esplanada, esse, fica no segredo dos deuses. Cheguei lá por um mero acaso, perdida em busca de um recanto onde me pudesse sentar e observar o sossego da luz do dia.

Numa pequena caminhada pelas ruas abaixo, pelo Bairro Alto, sente-se a vibração e a fama de zona boémia da cidade. Edifícios exíguos, antigos, coloridos. Os mesmos que atraíram Pascal Mercier, cujo livro saboreio quando paro. Comboio nocturno para Lisboa. Fachadas cobertas de azulejos e de histórias da noite. A zona mais fixe para beber uma cerveja, assegura-me o Miguel, garantindo que a animação é tanta que as ruas se enchem de gente a conversar, uns sentados no chão por falta de força nas pernas, outros alegres e animados pelo calor da sangria. Dezenas de bares, “mas os melhores são o Indie e os da Bica”, diz ele, de sorriso maroto a pensar nas noites que lá terminaram. E é para lá que me dirijo.

Sempre a descer. A Rua da Bica Duarte Belo cai íngreme. Ainda aqui permanece um elevador, dos mais famosos de Lisboa, agora numa nova vestimenta de fibra de espelho, à moda de Alexandre Farto. Reflecte a calçada e o ambiente envolvente. Uma tentativa cosmopolita de animar os espaços tradicionais, dar-lhes nova cor, chamar quem passa e convidar a parar. Outrora uma zona de abastecimento da tão necessária água, estava repleta de chafarizes, bicas e fontes. Alguns ainda persistem, junto às escadarias, escondidos em vielas, outros desapareceram na sombra do tempo.

“É um bairro do qual guardo muito boas recordações. A Bica teve sempre algumas peculiaridades muito da Bica. Foi sempre um bairro de habitação. Um bairro de artesãos, de varinas, de estivadores, de gente ligada ao Tejo, gente do mundo do trabalho”, já dizia Carlos do Carmo, fadista do bairro e famoso no país.

Hoje em dia, a zona é palco de animação e cultura. Junta tascas portuguesas à antiga e bares renovados, onde vão surgindo pequenas exposições artísticas, lojas ao estilo boémio, cabeleireiros avant garde e uma mistura de estilos e vidas que alimentam as veias do espaço. No Bicarte visitam-se as exposições que por ali vão passando, de jovens amadores que dão início aos sonhos. Vinte passos atrás, a conversa perdia-se com a já grisalha dona da taberna da esquina. Fala-se do incêndio de quinta-feira e das coisas que estão mal no país. Nunca sabemos onde é que isto vai parar. Cruzo a porta do cabeleireiro Hairport, mas arrependo-me subitamente ao ver o ar demasiado punk de um cliente. Mais abaixo, no Largo de Santo Antoninho, uma nova esplanada espera-me. Já me tinha sido anunciada pelo Pedro, tem os melhores caracóis de Lisboa. E tostas mistas, a derreter, cheiro a torradas e a conversa de tardes de Verão. Por ali apenas passam os poucos que têm coragem para subir toda a rua da Bica, evitando o elevador. A tarde sabe também a silêncio.

Depois da subida, para poupar o fôlego, o último spot espera-me. Pelo miradouro de Santa Catarina, sente-se Lisboa. Um novo ambiente, já mais decadente e sujo. Junto ao Adamastor, ouve-se hip hop, segredam-se histórias, cheira a erva. Da que se fuma. Um ambiente descontraído, quase demasiado. Opto pelo Noobai, para não abandonar a rota das esplanadas. Significa “nós vamos”, em crioulo, e tem sobremesas das que não se esquecem. Nem a vista nos abandona a memória.

Regresso ao Chiado, com os últimos raios de luz. Enquanto o rio rouba as cores ao pôr-do-sol, o dourado reflecte-se nas janelas e infiltra-se no humor de todos. Além, onde o rio espreita na curva da colina, o céu róseo toma conta da vista. Leva-nos para longe, para o outro lado do rio. No Largo Camões, entre personagens saídas de um filme de Woody Allen, todos se agitam. Chegam apressados para respirar os restos de sol. Ocupam as esplanadas, os bancos, os degraus da estátua. Deslumbro-me a observar quem corre para casa, numa tentativa de evitar a hora de ponta. Passam actores que nem todos reconhecem. Modelos de ar altivo fazem virar cabeças. Eléctricos a arranhar, apinhados; carros aceleram, vespas contornam o caos. Táxis rabugentos, ambulâncias que enganam o tempo. Uma bica, um travesseiro de Sintra e um porto em quase todas as mesas. E sol, muito sol. “Sem sol não há nada a fazer”, exclama a Sina, com o ar jovial de quem vive o dia a atender turistas, a conversar com quem passa e a sorrir para as personagens que dão vida a esta história. “Em Lisboa não se vive sem luz”.

“Buona sera, amigo”, tenta o mulato, com uma simpatia dissimulada. Esconde os óculos que tenta vender. Afasta-se e pára a olhar as luzes que se cruzam na distância. A cor da cidade apaga-se, o cinzento das paredes ilumina-se e o Chiado vai ganhando nova vida. Mesmo com as mãos geladas apetece aqui ficar. O Chiado é um bom lugar para se estar.

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4 thoughts on “uma bica ao sol

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