projetos


Ter um projeto 365 nem sempre é fácil. Demorei dois anos a convencer-me de que estava na hora. Por vezes, a pressão de tirar uma fotografia, como um compromisso assumido, é maior do que aquilo que deveria ser um simples passatempo. Mas foi este projeto que até agora me tem vindo a revelar o meu bairro, as ruas por onde nunca tinha passado, a assumir-me de máquina fotográfica em punho perante os vizinhos desconfiados e as cuscas que ficam a guardar os meus movimentos atrás da cortina.

Tem sido um desafio que, até ao momento, não tem custado. Há dias em que vou adiando a foto lá para a noitinha e acabo por tirá-la a qualquer coisa tão simles como uma peça de fruta ou às flores da jarra, com má luz e pouca dedicação.

Algumas semanas depois do início propous-me tirar fotografias a corações a cada sexta-feira. Mas às sextas, quando saio do trabalho e vou desanuviar as ideias e desligar-me da semana, muitas vezes esqueço-me e já no finalzinho do dia lá vou tirar qualquer coisita…

Mas…

… os dias que sabem mesmo, mesmo bem, aqueles em que antecipo uma boa caminhada e tiro centenas de fotos, são os que passo em Santiago, em casa da família. É a zona de maior conforto. Ninguém já liga à tolinha que anda a fotografar todas as flores que vê, ou que vai passear a pé com 4 cães (um gigante, uma com três pernas, um destrambelhado e um bebé) e se perde em devaneios. Que de vez em quando se deita na relva para apanhar um melhor ângulo de… relva.

Neste último fim de semana fiz figas para conseguir acordar cedo do meu coma sabático, para que o tempo estivesse do meu lado e que conseguisse descartar-me de algumas obrigações.

Foi altura de procurar uma planta que só por lá aparece uma vez por ano, na primavera. Sempre no mesmo lugar, rosa-impressionante, linda. E desta vez , mais graciosa do que no ano passado.

Voltei a este lugar, que já pertenceu à minha família e que sofre agora do esquecimento dos novos donos. “Sofre” é como quem diz… No meio de uma vinha cuidadosamente plantada pelo meu avô, foram aparecendo outras plantas. As que lá pertenciam. Num espaço pouco extenso, contei mais de trinta flores, todas diferentes. A primavera a mostrar-se, vaidosa. A luz e o aroma que me colocava a milhas do resto do mundo. O tempo. Parado. O passeio que avivou a memória dos dias em que por ali me escondia, de regresso da escola primária e, depois, culpava a professora pelo atraso. “Ela hoje obrigou-nos a ficar até mais tarde, a acabar os trabalhos”. A malvada.

E daquela vez em que choveu torrencialmente e nos escondemos debaixo de um arbusto e fizemos uma tenda de chapéus de chuva?… E o pinheiro que plantei desde que era pinhão até ser maior que eu? Regava-o todos os dias, não fosse a chuva esquecer-se. Arrancava as daninhas de perto. Limpava aqueles centímetros de solo. Protegi-o da implicante da Tânia, que depois de uma zanga quis partir-lhe um ramo – apanhou-as, claro.

E os dias de sol, em que corria para casa com a memória do Epá que me esperava. E as areias movediças onde me afundei até quase aos ombros – desta vez, apanhei-as eu. As borboletas que apanhava para colecionar asas coloridas, embora quase desfeitas, as flores que secava, as corridas até casa, os esconderijos. Até os coelhos, que ainda lá vivem, fugidios.

Foi um regresso doce com tudo o que se pode ter num voltar a casa. As memórias que fluem e os sentidos que explodem de surpresas que, afinal até nem o eram…

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2 thoughts on “projetos

diga lá qualquer coisinha

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