come again next year


No regresso de uma viagem, familiares, amigos, colegas e conhecidos perguntam-me como foi. Mostram curiosidade pelos lugares onde estive e pelo que vi, conheci, vivi. Geralmente, pouco tenho a dizer. A diferença entre o que vivo numa viagem e o meu dia a dia é tão grande, que o português me falha nas tentativas de explicar o que os meus sentidos experimentaram. É estranho transmitir a alguém o quão curiosa e divertida pode ser uma manhã de compras no mercado. Não sei descrever a sensação de viajar numa carrinha de caixa aberta durante várias horas, ou numa mota, sem capacete, sentada de lado, como fazem as mulheres decentes. Não sei como mostrar o sabor de uns amendoins partilhados num táxi, ou do chá oferecido em casa do barqueiro que nos levou a ver o pôr do sol. Ou do doce de palma oferecido pelo pintor.

E como se conta a um português, num café ao sabor de uma bica e um pastel de nata, a liberdade de se andar num comboio onde ninguém fala a mesma língua, mas se chega sempre à estação certa, com a ajuda de alguém para comprar comida? Ou a simpatia do rapaz do Internet cafe, que me avisa com um sorriso para não me preocupar, que não perco o meu trabalho porque falhou  eletricidade?… Ou que tem a amabilidade de me atribuir sempre o computador que fica por baixo do ar condicionado…

Falham-me as palavras para explicar como foi estar numa plataforma de comboio a tirar fotografias às crianças e entregar-lhes uma impressão Polaroid como recordação. A surpresa nos rostos, que se vêem a sair em formato de papel, de dentro da maquineta. E a satisfação das mães, envergonhadas de início, mas orgulhosas dos filhos, que pediam para tirar uma fotografia com toda a família. Ou dos monges que se divertiram e nos divertiram a fazer poses para a câmara. E a surpresa nos seus rostos quando lhes entreguei a minha máquina, objeto tão estranho.

Como contar que nada se compara a viajar pendurada na porta de uma carruagem, nada vendo a não ser o sacolejar do comboio a furar caminho entre os campos de arroz. 

Na verdade, quase nada consigo dizer sobre a minha viagem. Estive em Myanmar. Quase três semanas. Senti saudades assim que saí do autocarro, à porta do aeroporto, e o rapaz me disse “come again next year!” O mesmo que me disse à chegada “I remember you”, que tinha sempre um sorriso aberto que me fez sentir em casa.

Senti saudades assim que aterrei noutro país. Senti-me deslocada sempre que olhava para alguém e mostrava o meu melhor sorriso, sem resposta. Em Myanmar a linguagem dos sorrisos abertos é a que todos compreendem e que se fala quase sempre. Eu, que normalmente pouco rio, dou por mim a olhar em volta para dizer um “Mingalaba!” ou “Hello!” em resposta a todos os que me cumprimentam na rua. Com um sorriso.

O Myanmar que trago comigo é quase secreto, de tão especial.

É um dos lugares que ficaram em mim. Daqueles onde sei que vou regressar porque nada se compara, porque ainda há tanto para ver e fazer, que o tempo não chega. Porque exijo saborear cada novo lugar, e cada momento, impregnar os meus dias dos cheiros e sabores. E dos sorrisos.

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5 thoughts on “come again next year

  1. Depois de ver as fotografias, certamente após ler posts como este, sobretudo depoisd e sentir a poesia que fica em ti quando regressas ou antes de ires, um dia vou querer lá ir. Um dia, quero conhecer Myanmar… Mas acompanhada de uma guia muito especial…

  2. Pingback: Este ano a neura pós-viagem chegou mais tarde… « anchorite

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