262_super deluxe


enquanto inalava os fumos do escape e o pó que entrava pelo buraco da janela, tentava ignorar o cof cof  das coreanas. lembrei-me de ter pensado por que é que tanta gente usa máscara, mas com o tempo percebi.

mais cedo, tínhamo-nos rido  os dois da situação:  um autocarro superdeluxe, na índia, estranhamente barato.

agora já não tinha tanta piada. quer dizer, tirando a house music que saía do telemóvel da velhota tibetana.

ou a cara assustada da asiática que teve de ir na cabine do motorista, com mais cinco marmanjões.

de cada vez que acordei durante a noite, com as pernas esticadas e os pés levantados, encostados ao vidro à minha frente, pensei:  super deluxe! ou quando a minha cabeça caía, com o sono, e eu dava uma cabeçada na tábua de madeira ao meu lado. a certa altura, cheguei a pedir por um pequeno “acidente”, que arrancasse a janela dali. na véspera, quando comprámos os bilhetes, tudo tinha sido estranhamente fácil. na bilheteira, disseram-nos que o autocarro era… super deluxe. arejado, com assentos reclináveis. bus number 477. fomos lá fora e o 477 não era mau de todo. só não queríamos ir nos últimos bancos, aos tombos. e não é que nos ofereceram os lugares 1 e 2? os nossos preferidos – a melhor vista (atrás do motorista), uma janela ampla e bastante espaço para as pernas.  pagámos: 920 rupias.

confirmámos: four-seven-seven?

–          no, NEXT to four-seven-seven. four-four-five.

que é como quem diz “apanhados, é o autocarro do lado!”

fomos ver o 445. ao lado do 477.

não era mau de todo. bancos sujos, o normal. espaço para as pernas, aceitável. ficámos contentes porque tínhamos os melhores lugares: à frente. depois, pensámos: a viagem seria de 17 horas, com paragens breves para chá. e assim foi, tirando aquela vez em que parámos para reparar o furo no pneu.

só nos tínhamos esquecido de verificar uma coisa: se os lugares 1 e 2, os melhores do super deluxe bus tinham janela. de facto, eram à janela, mas o vidro, caído sabe-se lá como, tinha sido substituído por uma tábua. de madeira. grande, mas com buracos – uma espécie de ar condicionado. quando alguém fumava no autocarro, sabia bem. quando a poeira entrava, nem por isso. deu jeito a echarpe que amarrei em volta da boca e nariz – parecendo que não, 17 horas sem respirar pode tornar-se desconfortável.

o buraco no encaixe da tábua com o caixilho tornou o movimento da perna mais fácil: quando deixava de sentir a coxa, podia encaixar o pé direito quase de fora e voltar a sentir o sangue a circular.

a meio da noite a viagem foi tão fácil, que os buracos, saltos, pancadas e buzinadelas embalaram todos os passageiros num sono profundo. até o senhor ao lado do que ressonava em estilo locomotiva adormeceu. a sério. apagámos completamente.

quando, com uma cabeçada contra a “janela”mais forte do que o costume, eu acordava, lembrava-me de leh. a cidade que já era só quase nossa. eu gostei tando de leh… quase todos os turistas se tinham ido embora. até os locais, viemos a descobrir, não eram locais. a maioria é de kashmir, aquela região perto do paquistão, que aparece nas notícias com alguma frequência e para onde vamos.

mas por que é que não ficámos em leh, onde já tínhamos amigos?

porque, claro, os amigos que fizemos em leh também se vão embora. os indianos e os turistas estrangeiros. uns vão trabalhar para goa, outros estudam longe, outros voltam para casa da família, onde a neve não interfere com o dia-a-dia.

ajay, um funcionário do jeevan café, disse-nos que, às dez e meia, fomos os primeiros a entrar no  restaurante. no inverno, só fica na cidade quem não tem mais para onde ir. os 25 graus negativos tiram alguma mobilidade ao quotidiano – não há água nos canos, que congelam. toma-se banho a balde. há falta de comida, porque os campos… congelam. o exército traz aviões com mantimentos, mas apenas os básicos. a estrada para sul, a manali-leh highway, fecha a 15 de setembro, por se tornar demasiado perigosa. as escolas fecham porque está demasiado frio para pensar. as lojas não abrem enquanto não vem a primavera.

estes últimos dias mostravam-nos novos níveis de neve a descer as madrugadas. ao escurecer e antes do amanhecer, sentia-se um frio vindo do gelo, a dizer-nos que está na hora de mudar de poiso. começámos a vestir as roupas mais quentes e a pensar mais em quem pouca coisa tem e suporta quatro meses de inverno nesta província.

… e eu a queixar-me de uma viagem de autocarro desconfortável…

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7 thoughts on “262_super deluxe

  1. Lol… Que viagem. Sorte a vossa que foi de luxo… Olha se fosse no autocarro normal, daqueles que são simplesmente autocarros? Nem quero pensar… provavelmente tinha um vidro no lugar da tábua furada o que teria sido uma maçada, com uma paisagem dessas sempre a entrar pelo olhar dentro…E com uma vista bonita, ter-te-ias desconcentrado e não terias ouvido o ressonar do cavalheiro, nem o olhar de pânico da asiática da cabine do motorista e eu não teria dado as grandes gargalhadas que dei. Portanto ainda bem que o vosso autocarro era de luxo!
    Continuas no nosso pensamento e eu vivo suspensa de cada nova aventura. Muito obrigado pela descrição que fazes de cada passo. Estou verdadeiramente a adorar!
    E vivam os autocarros de luxo baratos!
    Só tenho pena que não vou poder ver mais fotografias fantásticas de Leh…
    Um abraço e boa viagem!
    (um destes dias mando-te um email carregadinho de novidades… Hoje digo-te só que és insubstituível:)…

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