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a roupa suja também se lava em público. em mumbai, os mahalakshmi dhobi ghats são o lugar ideal. é a maior lavandaria a céu aberto do mundo. a roupa chega de todos os pontos da cidade aos lavadouros municipais. em tanques de cimento, fica de molho e é energicamente lavada pelos dhobis residentes. milhares de peças são suspensas em cordas – sem molas, a corda enrola-se no tecido, prendendo-o e evitando quedas. é um espetáculo de se ver. mas brevemente. estamos a caminho de um outro lugar muito especial e o nosso guia pede-nos para tirarmos algumas fotos da ponte mahalakshmi. nada interferências no trabalho dos dhobis.

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seguimos viagem e chegamos ao destino: dharavi, o bairro de lata/favela. o nome pode parecer irreconhecível, mas a maioria já visitou o lugar através do filme quem quer ser milionário? para ver um pouco de outra forma de vida e conhecer  sem receios o bairro, levámos um guia de uma agência com o nome mais adequado: reality tours. nada de fotos.

eu já tinha uma ideia do que encontraríamos. pesquisei um pouco e percebi que um bairro de lata nem sempre é a terra sem lei que esperamos. com mais de um milhão de pessoas,  é o mais populoso da índia e essencial para a economia da cidade. dharavi em si é uma cidade – tem uma zona residencial e uma área industrial. muitos dos residentes trabalham no centro de mumbai, em empresas importantes. saem de casa pela manhã, fato aprumado, chegam à empresa e a maioria não diz onde vive. as casas são muito caras na cidade. muito, mesmo, pelo que viver em agregados familiares funciona melhor.

a área industrial também alberga os trabalhadores. depois de doze ou mais horas de trabalho, ligam o fogão a gás, fazem o jantar, estendem os colchões e dormem. não pagam pelo alojamento. em troca, vigiam as máquinas que usam durante o dia. e o que fazem? em que trabalham?

o ciclo começa com rag pickers, o nome dado a quem passa o dia na cidade a recolher lixo. da rua, dos restaurantes, dos hotéis. em dharavi, o lixo é separado por áreas. o plástico por cores. desfaz-se, derrete-se, adiciona-se mais cor para uniformizar e é vendido para ser re-usado. para qualquer coisa, à exceção de brinquedos e garrafas de água.

o papel é desfeito e passa pelo processo da reciclagem. as latas de óleo, depois de usadas e reusadas, são achatadas e prensadas para ganharem vida como telhas. as latas de tinta reciclam-se queimando a tinta e revendem-se à fábrica de origem. as sementes de algodão provenientes de gujarat são processadas e vendidas em barras sabão.

é aqui que dharavi ganha significado. não é apenas uma zona pobre para famílias pobres. é um centro industrial que dá vazão aos despojos da cidade. transforma-os, prepara-os para novos usos e emprega milhares. mais de quinze mil empresas empregam um quarto de milhão da população. cerca de mil milhões de euros são gerados anualmente, no que foi descrito pelo jornal observer como “um dos modelos económicos mais inspiradores da ásia”.

mas por que é então uma zona tão pobre? porque os trabalhadores vêm de longe, trabalham nas indústrias por vários meses, juntam algum dinheiro e regressam a casa para o partilhar. repetem durante vários anos, até que o trabalho se torna demasiado difícil. os ordenados estão acima da média nacional, entre as três mil e as dez mil rupias. os dez metros quadrados das casas custam cerca de três mil por mês, um ordenado. uma vida difícil. as ruas são demasiado estreitas. de ombro a ombro, não cabem duas pessoas no mesmo beco. a luz natural mal passa pelos intervalos entre as casas. a eletricidade é fornecida pelo governo, vinte e quatro horas por dia. já a água, só vem por três horas. há problemas de esgotos a céu aberto, lixo acumulado. uma casa de banho por cada quinze mil pessoas. quinze mil! estas condições de higiene geram muitas doenças. há hospitais no bairro – públicos e privados. mas com três mil rupias, não há dinheiro para medicamentos.

também há bancos, supermercados, caixas multibanco e tudo o que se possa imaginar. num futuro incerto, os residentes contentam-se com o que têm, fazem a sua vida, dando dinheiro à economia local.

mais do que a ideia de uma favela, dharavi deixou-me uma sensação positiva. há que ver além do que precisa de ser melhorado. atrás dos cheiros que vêm dos esgotos e do lixo espalhado, há uma comunidade em crescimento, unida, segura, que trabalha arduamente e tem um papel significativo na área.

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