álbum de fotografias #2


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alguns lugares são mais do que a geografia e as fotografias que posso e consigo tirar. varanasi é um deles. as pessoas que conheci mexeram comigo mais do que sabem. a relação entre esta cidade, a sua atmosfera e a dinâmica à minha volta determinou a forma como ouvi as suas histórias, como pensei em mim mesma e perspetivei uma série de acontecimentos. a presença e aceitação da morte numa forma tão diferente do que estou habituada guiou-me por conversas mais sérias do que o habitual, na partilha de experiências que só poderia acontecer com desconhecidos.

varanasi é a cidade sagrada onde se vem morrer. é a purificação da alma. os ghats onde se realizam as cerimónias fúnebres levam os corpos em nuvens de fumo. é uma visão única. medieval, atmosférica e estranha. à noite, mais de uma dezena de fogueiras iluminam as pilhas de madeira que esperam ser utilizadas. numa curiosidade mórbida observo as faúlhas e faíscas que sobem das piras, iluminando as caras. não há demonstrações sentimentais. as mulheres não estão presentes. não se vê um único sinal de modernidade. roupas escuras ou brancas, alguns homens de sarong, expressões neutras, silêncio, castanho e negro. mas com um recanto tão dedicado à morte e ao abandono dos despojos, em volta o mundo não pára. uma cabra come as flores junto a uma pira, os rapazes correm a lançar papagaios, lava-se roupa e alguns tomam banho no ganges. a menos de dois metros. alguns páram para ver, não interferindo com a família. a loja do chá vende as suas chávenas de chai ou uns docinhos enquanto se fuma tabaco ou haxixe.

a vida continua mesmo, mas para uma estranha que não cresceu numa realidade tão própria, meia hora de observação traz muito tempo de reflexão e de interrogações. varanasi não mudará, será sempre vida e morte, idade intemporal. eu continuarei a lembrar-me de cada história que ouvi, do que foi partilhado comigo, do que conheci de alguns desconhecidos. e de como tudo o que aqui vivi me faz sentir que cada um de nós é um nada muito completo, uma vida cheia, ainda que insignificante.

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