em perspetiva


 

começou com um ataque de choro depois de tentar perceber detalhes do sistema de impostos inglês. a senhora do outro lado não percebeu o meu sotaque e o meu humor implodiu. enquanto ela repetia os formulários que preciso de ter ou preencher, eu pensava que, se consigo dar aulas em inglês e ser compreendida, o problema não deve ser meu. mas era. o sotaque continua acentuado, conduzir à esquerda ainda é um pouco estranho. ainda não tenho muitos amigos aqui e sou sempre turista de máquina fotográfica na mão. na escola, quase tudo é novidade – a forma de ensinar, a organização, as reuniões, os alunos, as expetativas.

a integração nem sempre foi fácil. deixei de ser rita moreno e, nos dois últimos anos, tenho sido miss anna merino. não me importo que não escrevam o meu nome corretamente. não me importo que me chamem uma aproximação do  sobrenome. afinal, nem sempre pronuncio luke, thando ou thomas da melhor forma. e agradeço a compreensão de que me ouve dizer tent quando quero dizer tenth. ou a diferença entre thousandthousandth. ou quando me perguntam como se escreve polystyrene e eu tenho de confirmar no dicionário.

quando o bom humor volta, sinto que à minha volta há muita, muita tolerância. não houve um único pai na escola a queixar-se do facto de ser uma estrangeira a ensinar o filho. os meus conhecimentos nunca foram questionados. tive uma equivalência quase imediata – poderei sempre ensinar inglês em qualquer parte do mundo como se fosse native speaker. as minhas qualificações foram reconhecidas, o meu profissionalismo elogiado, as minhas falhas educadamente contornadas.

e de vez em quando volta aquela tristeza. vou deixar o reino unido. os fins de semana a conduzir pelo countryside, os sábados em londres, as férias no norte de gales. vou deixar a casa que adoro, a luz ao fim do dia, uma escola surpreendente. uma vida familiar com quem vai sentir a minha falta.

mas vou para o sol, para os sábados em lisboa. para a cidade onde tenho muitos, muitos amigos. e família. e a minha casa. mais possibilidades, ou outras. diferentes. será o meu primeiro verão sem uma viagem exótica e isso sabe ao fim de um ciclo. um travo amargo que ainda não se resolveu, a falta de planos para o futuro que choca com a vontade de não fazer planos e deixar a vida acontecer ao sabor do vento.

no meio de tantas incertezas, as fotos que se seguem também não têm nexo. são dos últimos dias, das coisas que faço, de um ou outro dia especialmente bom. e do melhor bolo de sempre. o melhor, acreditem.

 

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stonehenge, visto da estrada. meh.

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cartões de despedida (adorei um em que o aluno desenhou a minha casa como uma casa assombrada)

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flores em casa, sempre

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o jardim verde e fofinho a um metro da porta. o meu tapete favorito.

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a luz do fim do dia, depois da chuva.

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 o bolo.

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o melhor do mundo.

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o melhor.

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One thought on “em perspetiva

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